Pórtico

os gémeos primordiais



Foram do barro matricial criados
por seu demiurgo,
fonte primordial de toda a origem:
gémeos de ser.

Terroso um, luminoso o outro.
Um, primevo nascituro, é cor da mãe da terra,
que lhe conferiu a infante matéria  de que é feito.

Rugoso, como quem ainda de tudo carece,
é revestido como de pele
em sua rotunda feição,
em seu volume confiante.

É belo na aparência,
raiz de toda a melhor promessa
de ser, ao crescer.

A luz, que como de dentro lhe vem,
é branca,
é talvez pálida ainda,
quase temente de alumiar e ofuscar,
pedindo licença quase para ser.

Seu irmão geminado,
cor do sangue,
cor da vida,
mostra seu dentro cá fora.
Quase vivendo do avesso de si,
sua pele é cor de artéria,
vaso que vem do coração do barro.

Sua luz é cor do fogo
seu ardor não se contém,
não se detém,
carece de mostrar-se
carece sempre de dar-se
carece de todo o mais belo vir a ser.

Vir a ser não é contrário de servir:
ser’vir é contrário de não ser.

 






Kántharos I - 1,20x0,90 - Técnica Mista - 2006



1
animus e anima



De siamês início
na liga tangente de suas metades,
são interlivres,
não dependentes.

De um lado, a vertical total
fixando o limite de si;
do outro, o segmento aberto
da saída para o que venha,
da chegada do que possa.
Suas sombras simétricas,
são anti-natura, antifraternas,
mas bem conformes
de seus tão diferentes ser irmãos.

A luz, seu invés, é
identicamente situada
na afinidade do seu brilho:
diversa, no sentido
apenas do mútuo encaminhar.

São eva e adão primordiais
de todo o dentro e fora,
sem pecado, sem queda
de si: livres e belos,
como beijando seu
mútuo lado inocente,
como bojos que roçam a intimidade
um do outro.

 






Kántharos II - 1,20x0,90 - Técnica Mista - 2006



2

A pele e o sangue



Ao meio da quase simetria
o branco sem cor da vertical
mais justa é fiel da balança de si,
fio de prumo da alma ,
cântaro da vida no eixo do viver:
um deles nasce do fundo,
o outro é do próprio fundo
 da origem de ambos.

 






Kántharos III - 1,20x0,90 - Técnica Mista - 2006



3

trismegisto às avessas



A metade de cima em baixo,
em baixo a metade de cima: mas
em cima e em baixo mais perfeitos,
aqui lado a lado um do outro
em repouso deitados,
e em seu conteúdo abertos
para o além si,
como escapando à limitação
centrípeta do nada mediano em quase branco.

 






Kántharos IV - 1,20x0,90 - Técnica Mista - 2006



4

avessas das avessas



o avesso do avesso não é
o direito –
o direito do avesso não é
o avesso:
é trismegisto fluir e refluir
de si para si
do outro para si,
longo tentame de unir polaridade,
tentar urgente de polarizar  união
o que está a meu lado é
como o que está em mim.

 






Kántharos V - 1,20x0,90 - Técnica Mista - 2006



5

avesso ao avesso



Descoberto o próprio fundo no ao lado de si,
lado a lado mas sem bojo roçar
ele nela
ela nele
ela e ele
ele e ela
multiplicados pelo outro de si
no igual a si no outro
firmam-se no horizonte branco
que os solve e resolve
resolve no solve
solve e coagula:
cada um tem coágulo de si
a seu lado
no por baixo e no por cima
de parte nenhuma.

 






Kántharos VI - 1,20x0,90 - Técnica Mista - 2006



6

perfeição matrimónia



Alfim
(o que está no princípio
é como o que está no fim)
eles dão-se à mútua
primordial posição:
o horizonte de si está neles
como pele
de todo o limite e ilimite;
está como bojo matinal
 de todo o leve toque e retoque;
firma-se como cintura
(como se pluma na cintura de Ma’at)
cingindo todo o aperfeiçoar  
coroa de todo cruzar
de si
no outro
de todo o acasalar
do eu no tu
de todo o tu em mim:
matrimónio de tudo
com tudo;
contudo
em nova matriz de tudo
no antinómio
no antimonium
de todo o ser e não ser
verso e anverso de si
qual escaravelho:

besouro de si,
no mesmo cântaro
no mesmo pote
no mesmo amor
besouro

bes’oiro de si

Donis de Frol Guilhade

 




Cântaro (Etim. do latim canthărus, ‘vasilha grande de beber, bojuda e com asas; escaravelho, fonte em forma de escaravelho’, do grego κάνθαρος [kántharos ]‘escaravelho, fonte em forma de escaravelho; espécie de taça com duas asas’)

 

Besouro (Etim. de origem controversa; documentado no português antigo como abesouro, o vocábulo parece prender-se ao espanhol abejorro, aumentativo de abeja, ’abelha’; para outros seria derivado (de modo não explicado) do latim avis aurea, ‘ave de ouro’)