Beauté - 0,80x0,60 - Técnica Mista - 2006

 

Je trône dans l’azur comme un sphinx incompris;
J’unis un cœur de neige à la blancheur des cygnes;
Je hais le mouvement qui déplace les lignes.

Charles Baudelaire
(« La Beauté », Les Fleurs du Mal)

 

 

A leveza da beleza sem peso

 

Sistema da fala, em vasos comunicantes,
é o modo que o real em nós convoca
para, incessante, ser paradoxo que de nós ri:
o que nos espanta nos não surpreende!

- Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l’abîme?
- Venho do abismo, saí para as profundezas do céu!

Do ventre da mátria para a pátria das águas,
Geminadas margens dum mesmo mar,
o emprenhar embrenha-se-me no parir.

Lazúli na coloração de minh’alma em sua carne
viva, sou esfinge incompreendida
que tudo compreende ao tudo incompreender:
quem quererá entender quem tudo entende?

O movimento que as linhas altera me detesta
(até a si detesta):
as curvas são rectas, na beleza,
que ao excesso do esplendor se moldam, para poder ser.

Neva no meu coração, como num cisne alvo
Que no alvo tem a mira de seu mirar: nele,
o nadar é antecâmara de quase um nada.

…mas este nada é um tudo nada que é mais que tudo em seu todo …!

N.B Os itálicos são, ou transcrições ipsis verbis de Baudelaire, ou paráfrases do poema em epígrafe.