LUCE ALLE MENTI
Valentina Braun

 

Dall’alto d’una vetta immacolata
Vagava sguardo su paesaggio vivo.

 

Traffici, affanni e giochi in movimento
non sfiorano lassù senso d’udito.

 

Denso l’assalto di nuvola invadente
rapido escluse d’ogni umano il segno.

 

E nebbia e neve e mente, fuse nell’arcano,
resero intrusa carne e origine sicura di peccato.

 

Respira nebbia, profana neve con passo peso
E mente inquina di futile pensiero.

 

Io,macchia marrone in universo etereo e chiaro,
fui spirito fuso, pregando, all’unico Signore.

 

Rividi ignaro il modo brillante alla mia luce.

 

 

 

“MENTES ILUMINADAS“
Valentina Braun

 


Do alto duma elevação sem mácula
o olhar vagueio pela paisagem vivente.

 

Trocas, afãs e jogos em movimento
não logram perpassar-me o audir cansado.

 

O denso ataque duma nuvem, de súbito
intrusa, exclui todo o humano vestígio.

 

A neblina, fundindo-se em mistério com a neve e a mente,
faz da carne intrusa origem segura de pecado.

 

Respira-se neblina, com o passo a neve é profanada,
e ao pensar a mente contamina-se com o fútil.

 

Eu, mancha escura no claro universo etéreo,
fundo-me em espírito, orando ao único Senhor.

 

Ignaro, revisito à minha luz o brilho do entrecho.

 

 


 
Mentes Iluminadas I - 0,30x0,25 - Técnica Mista - 2008

 

Ao audir dos passos de nocturnas figuras
o luar perpasso na paisagem e respiro,
aos nós da neblina vivente no mínimo das cores .

Intrusa, dir-se-ia - iluminada na ocultação dos olhares -

exclui-me de todo o humano vestígio,
ao fundir-se-me, como em mistério, a mente no olhar.

Ao luar tenso do etéreo prumo,

revisito o íntimo xadrez da carne ausente
pelo ataque abutre das nuvens incontaminadas.

 







Mentes Iluminadas II - 0,40x0,50 - Técnica Mista - 2008

 

…E eis a noite estrelada se faz noite fechada
e o caminho se torna, em suas veredas rasas, indefinido…

A lua, perdendo em mim o seu luar, perdeu o lugar
e o ser horizonte de mim na clareza de caminhar.

O yin e yang pulsar que antes pisara, em si claro nas marcas
e mim marcado em clareza, inunda-se do que não sei que seja…

Raras agora, as aves me avisam a que cuide de meu cuidar:
voejavam gráceis sobre o luar, agora voam apostas na treva.

Meu olhar perdi de mim, que olha o luar. Em vez dele tenho,
impenetrável, um portal: de luz por fora, de terror por dentro.

 







Mentes Iluminadas III - 0,40x0,50 - Técnica Mista - 2008

 

Meu rosto está nas costas de mim,
meu olhar vê só o que não vê: é o que não é…. e não é.

Nas paredes de mim, as marcas de meu infindo esboço.
Nos traços do desenho de meu vulto, a sombra de minha sombra:
de sem luz … sequer de sem sombra.

Piso as águas de que me inundo em secura.
Nua do que devera vestir-me, sou como veste sem corpo,
pendurada em mim por alguém, em minha ausência.

 







Mentes Iluminadas IV - 0,40x0,50 - Técnica Mista - 2008

 

O luar veio ver-me pela vez derradeira …
Morri do que não sei, morri de não ser.

Tenho o rosto como ilha que a mim sobrevive,
tenho a meu lado os destroços do que não fui.

Além está o que sou,
treva crescente que ilumina o que não cresce.

Dão flor as folhas em que hei-de amortalhar-me,
Dou meus cabelos às águas que me navegam o pranto.

Hei-de acordar deste pesadelo de ser um sonho;
hei-de acordar ainda, no adormecer final que enfim me desperte…


Donis de Frol Guilhade

 







Série “Mentes Iluminadas”, 2008
Lenir Witzke

 

Alma incansável na sua demanda de artista, e espírito sempre inquieto que se entrega e dá toda em tudo aquilo que põe entre mãos, Lenir Witzke já nos habituou a não darmos por adquirida a compreensão da sua weltanschauung plástica.

Com efeito, o olhar com que a pintora vê o mundo e as coisas aponta sempre para um além do mundo e das coisas, para um como que sedimento anterior e interior à própria realidade. Daí que as suas obras tenham sempre a frescura das coisas autênticas, que se nos mostram de tal forma e por tal modo que, dir-se-ia, ser sempre a primeira vez, de cada vez que as contemplamos.

Assim se passa também com a presente série, que a artista denominou “Mentes iluminadas”, numa feliz parceria criativa com a poetisa Valentina Braun, e seu belo poema “Luce alle menti”.

As quatros obras com que Lenir Witzke recria em si o desafio constituído pelo poema só pode surpreender-nos pelo fôlego intensíssimo que as ilumina a todas. 

Na verdade, a artista não se limita a “ilustrar” o poema, o que seria vulgar e por certo mais fácil, mas vai muito mais além, arrancando de sua vivência a própria substância plástica que perpassa esta série.

O extremado rigor da ascese cromática evidenciada na paleta que a pintora desde logo se impôs denota bem a enorme tensão que subjaz a este notável conjunto.

Prenhes duma nocturnidade enxuta de todo o supérfluo, as telas invadem-nos com aquele particular desconforto com que só a verdadeira arte nos toca, desafia e transforma.

Sinal inequívoco, com efeito, dessa força intrínseca que delas emana é a impossibilidade de sermos indiferentes perante elas. Dir-se-ia que são elas que nos olham e procuram, e não o contrário.

Pela espantosa interioridade que lhes é conferida pelo seu cromatismo austero, somos como que reduzidos ao mínimo realmente importante na vida humana: luz, sombra, chão, porta, caminho, céu, olhar, árvore, água, luar, morte, etc…

Arquétipos, na verdade, com que a artista nos fala a linguagem universal da arte. E, tal como na vida, também aqui cada trecho, cada contexto, cada entrecho, contém elementos que advêm de outros, que os perpassam, os atravessam, e neles permanecem...

Elementos fortemente simbólicos como o chão em quadrícula que define uma estruturação individuante; o dramatismo sobrevoante das aves oníricas; o abraço tenso das árvores, definindo e delimitando o percurso e os recursos; o imparável elemento da água, inundando inapelavelmente certos níveis do ser; a ilustrante teatralidade do biográfico nos vários planos em que tal se exprime; até ao tranquilo sono ou sonho da morte, que tudo dissolve ou resolve – tudo isto são como que “entidades” plásticas e psíquicas com vida própria, tão suficientemente própria que chega a reviver-se em nós.

Ainda bem, pois esse é o sinal inequívoco de que a alma sobejamente viva de Lenir Witzke transborda em arte capaz de replicar em nós vivências humanas, extremamente humanas (como diria Nietzsche), e de gerar assim aquilo que mais denota a arte que não corre atrás de modas ou de modos: a verdade justa da autenticidade sem tempo.