Illusione - 1,50x1,20 - Técnica Mista - 2009

 

 

Pegada da voz, pão da ausência

 

O tempo gasta a minha voz como se fosse o seu pão.
É ele, é ele que tem tudo escondido.

Tempo, molde de todos os lugares,
Pegada de quem desaparece.
 
Vitorino Nemésio, “O Canário de Oiro

 

Sou gaiola de mim, sem poleiro,
sou sem descanso, ausente
no presente que me sustenta.

Têm minhas grades três anéis:
o espírito, o corpo e isso
que me anima ou desanima.

Estou à porta do sangue e do fogo,
meu grito, meu pranto,
minha sede de ser: me defronto!

Na parede do que foi escreve-se-me o tempo,
molde de todos os lugares, destempo
que desgasta em mim a voz como se pão fosse.

As paredes de mim todas são marcas,
algumas marcos, arcos de volta inteira:
arte, pegada de quem desaparece...

 
Donis de Frol Guilhade
9 de Outubro de 2009