Ceia dos sem rosto (derradeiros em nós) - 1,30x0,80 - Técnica mista - 2007

 

Ceia dos sem rosto
(derradeiros em nós)



São treze os últimos. Serão os primeiros. Menos Um…
Tão pobres são (qual ensinara Ele)
que nem rosto logram ter. Mais pobres, só se nem fossem….

Um só está só: o que a todos trai
negando o nome de Um, que é todos,
que é O que oferece o Sangue no vinho, o Corpo no pão.

Este, ao centro, está no em cruz
da linha da mesa com a linha da porta,
estreita para os de jugo leve e rosto mínimo.

Os de pé, estão mais sentados,
é como se prostrados estivessem;
de estarem mais longe, estão mais chegados.

O mais sentado é o que está mais de pé: pena que seja!
É o defunto já: molhou o pão no prato em que cuspiu
o escarro de si: ah, não iscariotes teu amigo com tão acre beijo…!

Sobre a mesa está preparado o cordeiro. Manso, Ele brota da mesa
como árvore de vida comum. Vida em tudo, em tudo comum: com’Um.
Ele é a própria mesa em que Se oferece:

Ele é o tudo nada, o nada que é tudo.

Donis de Frol Guilhade



 

Ceia de Máscaras (sem baile) - 1,10x0,70 - Técnica Mista - 2007

 

Ceia de Máscaras
(sem baile)


O pórtico mediano perdeu a linha de horizonte.
É outro o horizonte dos olhares,
É outro o ponto de fuga destas linhas.

Em vez da Tríade do Ultríssimo mostram
seta que aponta ao Ultérrimo, Último de todos
os últimos: prometeu Ele seriam primeiros.

É cada máscara o rosto em que os escondemos,
E cada rosto, o resto que não logramos remover:
movediço o olhar que pisamos, e seu terreno.

O que oferece, Se oferece. Os convivas, nós,
trazem o que são e o que não: ora se escondem
em máscara, ora se mascaram sem rosto.

A face única é a do Branco de Nava, alvo amarelo
de Lúmen, que a É, na nava plena em que embarcamos -
viagem e via láctea em que o graal nos navega.

Pão e vinho, sangue e corpo estão onde estão, estão
onde devem, sobre a mesa estão: messe do mosto
humano mudado de graça pelo húmus divino.

É no Sinai o trovão o anfitrião, e é leão
de Judá: tem rosto de nuvem, da que paira e desce
sobre toda a alma boa, paisagem d’Ele e seu vero país.

Tem a natura sobre a mesa dos homens, a divindade
no abismo das almas, o corpo tem-lo por todo
lado - é deles a riqueza maior: é pão de pobres.

Amarelha fontana, adâmico barro, branco de nada –
cores primas primordiais do mundo, do antes
e do empós todos os mundos e todo o imundo verdugo.

Donis de Frol Guilhade

 

 

 

Sermão da Cruz na montanha da Ceia - 1,10x0,70 - Técnica Mista - 2008

 

Sermão da Cruz na montanha da Ceia

Aos pés do Mestre em cruz ilhado, na raiz
 da vida que a morte não conhece, no getsemani
do horto o sangue chora lágrimas em que as aceita
manietadas, que não maníacas como as nossas.

A câmara é alta como a montanha do bem
aventurar em seu sermão, ser mão
multiplicando na irmã planura peixes e pães
para uns e para outros: todos.

Discipuladamente, os famintos de outro
pão escutam (Ele a alma lhes
perscruta), estando como são,
menos um, que está como se não estivera.

Este, o moedeiro, mais perto está
que todos, e porém não está, não é
dali, só a veste ali há, máscara involume
urdida na traição em seu mais vil tecer.

O que ao imo desceu do homem
subiu ao nimbo que abraça o mundo.
O imundo lhe não toca, mas ele
 desce à geena de todo o pranto.

Donis de Frol Guilhade

 

 

 

Egrégora - 0,70x0,50 - Técnica Mista - 2009

 

Egrégora?

Sob o sereno gélido que não parece,
Aquecem-se na comunhão.
Atentos e famintos, em comum união.
Não se escuta, porém, nenhuma prece.

Entre murmúrios e sussurros
Compartilham o pão, o vinho, e suas histórias.
Ouvem ao próximo.
Mas nem todos.

Enquanto um repousa,
Dois ponderam sobre o seu próprio “Eu”.
“Eu” quem?
Se nem rosto eles têm?

A lacuna em suas almas
Se preenche com a migalha de suas palmas.
E é isso que compartilham.

E o ser de olhar sereno,
Que mais elevado está.
Estaria sob uma oliveira?
Talvez vigiando,
Orando em silêncio?
Antes fosse.

Pois nenhum vigia,
Ninguém ousa.
Apesar da esperança, não esperam por nada.
Contentam-se com o que têm:
Uma esparsa sombra de seus trapos;
Ou com o que não têm:

São doze.
Ou não tem um Judas,
Ou falta-lhes um Mestre.


Érico Witzke

 

 

 

Mater Virgo - 0,60x0,80 - Técnica Mista - 2009

 


 

 

 

 

Pane Quotidiano - 0,50x0,40 - Técnica Mista - 2011

 


 

 

 

 

A Ceia Última - 0,50x0,70 - Técnica Mista - 2011