Máscaras - 0,60x0,70 - O.S.T. - 2005

 

“Máscaras e sub-máscaras”  (inPoemas Ingleses”)
Fernando Pessoa


How many masks wear we, and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
The true mask feels no inside to the mask
But looks out of the mask by co-masked eyes.
Whatever consciousness begins the task
The task's accepted use to sleepness ties.
Like a child frightened by its mirrored faces,
Our souls, that children are, being thought-losing,
Foist otherness upon their seen grimaces
And get a whole world on their forgot causing;
And, when a thought would unmask our soul's masking,
Itself goes not unmasked to the unmasking.


 

Idem, trad. Jorge de Sena

Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?
De máscaras não sabe a vera máscara,
E lá de dentro fica mascarada.
Que consciência seja que se afirme
O aceite uso de afirmar-se a ensona.
Como criança que ante o espelho teme,
As nossas almas, crianças, distraídas,
Julgam ver outras nas caretas vistas
E um mundo inteiro na esquecida causa;
E quando um pensamento desmascara,
Desmascarar não vai desmascarado.


 

Idem trad. Donis de Frol Guilhade

Ah, quantas máscaras não temos nós, e sub-máscaras,
Sobre o semblante da alma; e se, por mero jogo,
A alma de si as remove, saberá ela
Quando tira a derradeira, e depare já com a face nua?

Não se sente como dentro de máscara a que é verdadeira,
Mas vê por sobrepostos olhares que mutuamente se mascaram.
Qualquer que, de início, seja a consciência disso
O hábito de aceitá-lo fá-la quedar-se dormente, presa.

Qual criança assustada por suas feições em espelho reflectidas,
Nossa alma, infante que é, e sem pensar,
Julga ver almas outras nas meras caretas que vê

E todo um mundo na causa delas, esquecida; mas,
Quando um pensamento logre da alma remover seu mascarar-se,
É sem este que ela alcança então o que é sem máscara.

 


 

 

Causa - 0,60x0,70 - O.S.T. - 2005

 

Causa, casa do vir a ser

Oculto, o “u” mediano da palavra não está
está pelo que é ausente: em todo o consequente.
É semi-labirinto grego o seu padrão. Por ele, por esse
caminho infuso na causa, ele acede ao interior de si, 
pela escada que sobe de si para si, 
num além que é chegada à partida.

Haver causa supõe haver tempo,
e tempo é a perfeita sincronia de todo o relativo:
disso houve cósmica mestria o nobre povo maia:
Calendário é ordenação do tempo,
que a vida ordena, na passagem da vida e no além vida.
Disso, o selo que a máscara, causal, a seu lado ostenta.

Da boca, órgão do poder causar, eleva-se, qual lâmico vajra,
adamantino ceptro que rasga em bifurcado discernir
todo o contrário, e todo o contrário do contrário.
Iluminante, fá-lo em tríplice nível: de boca a nariz
vai o articular que beija os sentires, no olfatar o real pelo cheiro do etéreo.

Na fronte bífida, imóvel, sem olhos o olhar perscruta o que o perscruta…

 







Alma - 0,60x0,70 - O.S.T. - 2005

 

Almáscara

Olha como quem não olha.
Máscara em forma de rosto,
aberto ao alto,
as gregas janelas de si são como pulmões:
do que será, no espelho mútuo
de uma na outra.

O olhar, fechado em si,
entreabre-se no sorriso
(Gioconda das máscaras)
em chamas por dentro,
em mudez para nós
dominando-se entre mostrar e o ocultar-se nisso.

Em espiral, hipnose meditativa,
á sinistra do coração - ele próprio máscara íntima -
mascarando o lábio no ouvir,
são ditas por ninguém,
junto ao ouvir interno,
palavras indizíveis em que se constrói no que constrói.

À direita dela, espiral mais aberta,
no menor vórtice firma-se em trapézio -
qual esquadro do desejo com que desenha
a verticalidade enviesada do real - vaso inverso
que se entorna naquilo tudo de que é feito
e, regando-se em firmeza de alicerce, a tudo retorna do que almeja.

Assente no fundo das águas,
como insciente liquefazer de si,  
o prado do vivo e de todo o mais petrino imo
ele perpassa pacífico o oceano da cadência
de todo o ritmo, como um istmo decisivo,
na arritmia que fundamenta, íntima, a construção das coisas.

 







Careta - 0,60x0,70 - O.S.T. - 2005

 

Careta

Como em Côa, na foz,
- Lascaux portuguesa a céu aberto exposta -
as inscrições aqui celebram, dançando, a imobilidade do tempo,
mergulhando recentes nas margens deste busto.
Não em torno das água do Côa agora:
em torno da careta que, hirta,  nos fita proto-histórica.

Como as águas do rio, também a careta
Tem submersa a parte visível:
Esconde o que parece mostrar.
O olhar, dir-se-ia de peixe espantado,
É linha de água para as duas bocas reflexas:
Como ser de enigma que desce quando sobe o nariz,
Que toma asas quando sobe desde a matriz de si.

 







Espelho - 0,60x0,70 - O.S.T. - 2005

 

Espelho

Que espelha o espelho que nada espelhe?
Reflecte o contrário do que vemos.
É o anti-espelho que, inumano filósofo, nos especula.
É o olhar mago que desvenda o que mostramos
e nos mostra, ai,  o que não somos do que não somos:
é o susto pânico de tudo aquilo em que falhamos.
É o frio de nós, gelados, de não sermos nós.

 







Submáscara - 0,80x0,50 - O.S.T. - 2005

 

Sub-máscara

Parece um crocodilo surreal, mas não.
É um sáurio mítico,
que habita, inóspito, as profundezas de nós.

Pela plumagem vê-se que é índio,
da tribo livre e natural de nós.
Pelo travão na raiz da boca,
vê-se, ai, que é para ser domado.
Pelas pinturas de combate,
sabemos que está pronto.

Está ele vivo? Será redivivo ele?
O olhar, aceso, falando mudo nos sossega:
está vivo,  porque está redivivo em nós.

 







Jogo - 0,60x0,80 - O.S.T. - 2005

 

Jogo

Quando a natureza é natural, é de jogo:
se até Deus joga aos dados, afinal…
Mas se o natural é ser jogado, é isso já coisa fatal,
é depender do acerto alheio
e do diâmetro da argola incerta que nos cinte o sentido:
os olhos com que jogamos estão inchados, de tanto fitar.
O alvo que nos fita somos nós,
e três oportunidades temos apenas:
nem uma igual, e nem mais uma.
E… todas terão de falhar.
Só assim acertaremos…

 







Pensamento - 0,60x0,70 - O.S.T. - 2005

 

Pensamento

O pensar, mascarando-se em real,
pensa o que o pensamento imagina pensar,
que nada pensa.
Nada mais sério, nada que menos adie
o tentame de completar o puzzle
que somos com aquilo ainda não somos.
O riso é o cume pasmo do pensado:
ri-se de si, rindo de nós, que rimos dos outros.
O pensamento é o sorriso da verdade.
A verdade, a máscara do que é.

 







Criança - 0,60x0,70 - O.S.T. - 2005

 

Criança

Quem nunca foi criança, e inda não seja –
ponha o dedo no ar!
Hoje não brinca!
Quem não brinca há tempo demais
é convidado hoje a brincar ao sério!
Isto é muito sério: é para brincar!

A criança é a flor de nós,
de que seremos semente do fruto.
O rosto infante é alma criando-se
na boca do ser que em festa cresce.
Ser crianço em criança é quase fácil;
Sê-lo depois de não ser, é pouco menos:
É quase tão difícil como ser…
…um homem que recresce.

 







Consciência - 0,60x0,70 - O.S.T. - 2005

 

Consciência

Esta é a máscara que supera todas as outras.
Mas será peixe, será réptil, será rã, será taúrio?
Será fruta, será fruto, será homem?
Será tudo isso, ou nada?
Quando a máscara se mascara a si mesma
É como se ela tomasse consciência do que é.

Luxo de ser máscara de tanto
Acaba em pura desmascarada: carnaval às avessas.

 







Aliança - 0,60x0,70 - O.S.T. - 2005

 

Aliança

Aliar por ser eviternamente
será meu fito: além vida.
Além morte se nasce: para o rosto
eterno que haja.

Eterno ser almejo
Além do fito: de ser vivo.
Hei eviterna a memória:
A morte no rosto me nasce.

A demasia me coroa, de ter sido infindo
na testa equânime: a serpe cascavel me está
fiel por balança de reinar sobre a estreiteza
em que assenta a coluna em hei o trono.

Meu olhar é o que não ousam todos fitar.
Olha dentro, para fora: vejo mais do que olho.
Da raiz de sobre o olho à simetria do hieral nariz
tenho no perfil as linhas do Nilo, o rio sacro que me é afluente.

No sarcófago hei mais luz que o sol nas desertas areias a pino.
Esta que me é eterno manto brota de mim, da origem,
De Amon Ra, de que sou hieroglypho vivente.
Séculos passarão até que me decifrem: a antiquíssima aliança.